uma batalha constante

Saturday, April 22, 2006

à la tête

Quem sou eu para discordar de Dona Augustinha? O pouco que sei da senhora de cabelos longos e brancos é suficiente para respeitar suas opiniões. Pelo porte e localidade de sua casa verde e recuada percebo que se trata de uma mulher de poucas posses. Agora o faro é outra história.
Sempre que chamo sua casa, Dona Augustinha faz questão de saudar com Boa Tarde, pelo menos. Uma atitude nobre e gentil tão pouco repetida pelos outros clientes do restaurante. A frieza comum não cabe ao caso. Às vezes ela chega ao cúmulo de esticar a conversa arriscando alguma previsão de neve, chuva ou qualquer banalidade do tipo. É daquelas conversadeiras que aguardam respostas atentamente. Além da educação; uma dama à moda antiga.
O que mais chama-me atenção, no entanto, é quando chego a porta de sua casa verde e recuada com a bandeja de comida nos braços, e ela já começa a gastar o francês que a vida a ensinou. O verdadeiro motivo da mistura de idiomas que sugere eu desconheço. Mas como bom paranóico observador, parece que ela usa isso pois vê em meus traços turcos alguma relação aos exilados do oriente médio parisienses. Ou a barba sempre tão presente lembra ela alguma coisa vista na televisão. Talvez até a minha alienação inerente ao ambiente que vivo. Pior ainda, desconfia do sotaque falso português que tento imprimir.
Sempre solta um Bonjour quando me vê. Eu respondo educadamente a saudação me lembrando não somente, da obra-prima de Jean-Pierre Jeunet. Preocupado com a pronúncia, obviamente. E então desenbesta-se a falar. E eu faço caras e bocas como se tudo fosse normal. E respondo em Inglês, meu porto seguro. A velha fala, mexe a sobrancelha entortando seus óculos de hastes preta e grossa. Grita pelo filho em português, que, prontamente vem à porta recolher os pacotes- nunca levo ordens pequenas àquela casa. No mínimo três frangos com arroz branco e batatas.
E a senhora continua disparando aquela língua tão bruta e enrolada. Então começo a associar os radicais. Prendo minha atenção aos lábios gastos e enrugados. Até travo a vista. De repente reconheço um mon ami perdido. E quando vejo, ela esta com o dinheiro na mão direita. A quantidade certa da compra. E na mão esquerda, uma nota de cinco toda enrolada. Como um canudo daqueles de cheirar cocaína. Diz ser para o café. Merci beaucoup, lhe respondo. Oui oui, ela respinga fechando a porta.
Toda vez que entrego comida na casa verde e recuada é assim. Eu garanto que nunca perguntarei a ela o porquê do francês. Prefiro manter o mistério; desconhecer! Dona Augustinha por si só já influencia a trilha sonora da minha volta ao restaurante. Ora Mano Chao, ora Plastic Bertrant e porque não Biônica. Levar comida até o cinquenta e nove da Hawkins Street é como visitar outro país sem mostrar meu documento.

1 comment:

Anonymous said...

sabe tuti... legal este conto, adorei... mas o conto abaixo me chamou a atenção PURDIMAISDACONTA. Sou lerda... é bem verdade... mas.. mas... mas... oq tinha no pacote marrom? maconha, bebida ou pãezinhos? Huauauhahauha... beijos, que saudade de vc.

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